Foto: Composição editorial baseada em registros históricos e projetos do século XIX
Antes do grande Porto do Rio, a modernização começou na Doca da Alfândega?
Décadas antes dos grandes aterros da Saúde e da Gamboa, o Rio já tentava modernizar seu porto. A Doca da Alfândega, iniciada em 1853, revelou avanços — e também os limites de manter o porto concentrado no Centro.
Temporada 1 — Antes do Porto Maravilha
Artigo 9
Quem passa hoje pela região da Praça XV, Paço Imperial, Museu Histórico Nacional e antigo eixo da Alfândega encontra uma das partes mais antigas do Centro do Rio. É difícil imaginar que essa faixa da cidade tenha sido, no século XIX, palco de uma experiência de engenharia que ajudaria a preparar o caminho para o futuro Porto do Rio.
Muito antes dos grandes armazéns da Gamboa e da Avenida Rodrigues Alves, o Império já enfrentava um problema: como adaptar o porto de uma capital em crescimento a uma movimentação cada vez maior de navios e mercadorias?
A resposta começou a ganhar forma com a Doca da Alfândega.
Em 1851, recursos foram destinados a melhoramentos portuários. No ano seguinte, uma comissão de engenheiros elaborou um projeto de cais entre os Arsenais de Marinha e de Guerra, atravessando justamente a frente marítima do núcleo central da cidade. O plano previa docas, pequenas bacias, rampas e áreas para embarque e desembarque. (rio.rj.gov.br)
Em 1853, o engenheiro inglês Charles Neate apresentou um projeto mais detalhado: um cais contínuo ligando os dois arsenais, com três bacias. A maior serviria à Alfândega; outra atenderia ao Mercado; e uma terceira seria destinada a pequenas embarcações e vapores da Baía de Guanabara. As obras começaram ainda naquele ano. (rio.rj.gov.br)
Era uma tentativa bastante moderna para a época.
Além das obras hidráulicas, foram construídos armazéns e introduzidos equipamentos mecânicos. O grande armazém da Alfândega chegou a receber elevadores hidráulicos, e máquinas a vapor passaram a ser empregadas nos trabalhos. (rio.rj.gov.br)
Mas havia um problema que nenhuma máquina conseguiria resolver facilmente:
faltava espaço.
A modernização esbarrou nos limites do Centro
A Doca da Alfândega estava sendo construída justamente em uma das partes mais densamente ocupadas da cidade.
As obras avançaram lentamente e enfrentaram dificuldades técnicas e financeiras. O projeto iniciado na década de 1850 atravessaria vários anos e diferentes administrações até que suas partes essenciais fossem concluídas em 1877. Um livro publicado naquele mesmo ano por Borja Castro, hoje preservado pela Biblioteca Nacional, registra detalhadamente o Porto do Rio e as obras da Doca da Alfândega. (bdlb.bn.gov.br)
A própria PortosRio considera a construção da Doca da Alfândega um marco dos primeiros projetos de desenvolvimento do Porto do Rio, num momento em que as operações ainda estavam espalhadas por diversos trapiches e cais. (portosrio.gov.br)
Mas a obra também mostrou que o núcleo antigo não conseguiria absorver sozinho o crescimento portuário.
Foi nesse contexto que ganhou importância um dos engenheiros mais marcantes da história da região: André Rebouças.
Rebouças chegou a atuar na direção das obras da Doca da Alfândega, mas criticou a concentração do projeto naquela área. Segundo documentação do patrimônio municipal, ele considerava o cais insuficiente diante do número crescente de navios que chegavam à capital do Império. Sua proposta apontava em outra direção: Saúde e Gamboa. (rio.rj.gov.br)
Ali seria possível pensar em algo maior: docas, armazéns, ligação ferroviária e estruturas para reparo de embarcações.
Essa ideia é importante porque antecipa a lógica que, décadas depois, acabaria prevalecendo.
O futuro do grande porto não estava mais apenas diante da Alfândega.
Ele avançava para o oeste.
Entre 1871 e 1875, foram construídas as Docas de D. Pedro II na Saúde, empreendimento ligado a Rebouças. Embora o projeto tenha sido reduzido por dificuldades financeiras e políticas, parte dessa estrutura chegou até nossos dias no atual Galpão Docas Pedro II, na Avenida Barão de Tefé. (rio.rj.gov.br)
Poucos anos depois, em 1879, a Estrada de Ferro D. Pedro II inaugurou seu ramal marítimo até o Saco da Gamboa, atravessando o Morro da Providência por túnel. Porto e ferrovia começavam a formar uma infraestrutura integrada. (rio.rj.gov.br)
A modernização portuária deixava de ser apenas uma questão de construir um novo cais.
Era preciso pensar em cais + armazéns + ferrovias + áreas de expansão.
Um projeto de cidade que já apontava para o futuro
Na década de 1870, essa discussão ficou ainda maior.
Em 1874, foi criada a Comissão de Melhoramentos da Cidade do Rio de Janeiro. Seus relatórios de 1875 e 1876 apresentavam propostas para saneamento, circulação, expansão urbana e infraestrutura. A Biblioteca Nacional destaca que esses estudos marcaram uma nova maneira de enfrentar os problemas da cidade: com planejamento técnico conduzido por engenheiros. (bndigital.bn.gov.br)
Um dos planos chegou a prever um porto moderno com cerca de dois quilômetros de cais, dique, grandes aterros no Saco de São Diogo, instalações comerciais e industriais e conexão ferroviária. (acervo.bn.gov.br)
Boa parte não saiu do papel naquele momento.
Mas as ideias estavam lançadas.
Décadas antes das reformas de Pereira Passos e da construção do grande Porto do Rio iniciada em 1904, engenheiros já discutiam exatamente os elementos que acabariam definindo o futuro da região: aterros, grandes cais, ferrovias, armazéns e expansão em direção à Saúde, Gamboa e São Cristóvão.
Por isso, a Doca da Alfândega deve ser entendida não apenas como uma obra isolada.
Ela foi uma espécie de laboratório da modernização portuária carioca.
Mostrou o que a engenharia podia fazer — e também mostrou que o Centro antigo tinha limites físicos para receber o porto que o Rio começava a exigir.
O que mudou e o que ainda podemos observar
A frente marítima daquela região sofreu tantas intervenções posteriores que a antiga Doca da Alfândega já não pode ser compreendida apenas olhando a paisagem atual.
O entorno da Praça XV foi aterrado, remodelado e ocupado por diferentes equipamentos urbanos ao longo do tempo.
Ainda assim, caminhar entre a Praça XV, o Paço Imperial, a antiga área da Alfândega e o Museu Histórico Nacional ajuda a compreender a escala do antigo núcleo portuário.
Para quem quiser continuar essa história no território, o percurso pode seguir em direção à Saúde.
No Galpão Docas Pedro II, na Avenida Barão de Tefé, 75, sobrevive uma estrutura diretamente ligada à etapa seguinte dessa modernização. O edifício, construído em 1871 e associado a André Rebouças, hoje abriga o Laboratório Aberto de Arqueologia Urbana. (irph.prefeitura.rio)
Segundo o IRPH, as visitas ao laboratório ocorrem de segunda a sexta-feira, das 9h às 17h, mediante agendamento. Recomenda-se confirmar as condições antes da visita. (irph.prefeitura.rio)
A região da antiga Doca da Alfândega, por sua vez, pode ser percorrida gratuitamente pelos espaços públicos do Centro.
Uma curiosidade importante
Quando pensamos na modernização do Porto do Rio, normalmente lembramos das obras de 1904 a 1910.
Mas a discussão começou pelo menos meio século antes.
A Doca da Alfândega foi projetada em 1852, teve obras iniciadas em 1853 e só alcançou a conclusão de suas partes essenciais em 1877. Nesse intervalo, a própria ideia de porto moderno mudou.
O problema deixou de ser apenas “melhorar o cais existente”.
Passou a ser:
onde construir um porto grande o suficiente para o Rio que estava surgindo?
A resposta acabaria transformando Saúde, Gamboa, Santo Cristo e São Cristóvão — e prepararia o terreno para o enorme projeto portuário do início do século XX.
Fontes documentais
PortosRio — História e Características do Porto do Rio de Janeiro. A autoridade portuária identifica a Doca da Alfândega como marco inicial dos primeiros projetos de desenvolvimento do porto na década de 1870. (portosrio.gov.br)
LAMARÃO, Sérgio Tadeu de Niemeyer. Dos Trapiches ao Porto. Estudo fundamental sobre os projetos de melhoramentos portuários, incluindo o projeto de 1852, Charles Neate, a Doca da Alfândega e as propostas posteriores. (rio.rj.gov.br)
Biblioteca Nacional — BORJA CASTRO. Descripção do Porto do Rio de Janeiro e das obras da Doca d'Alfandega, 1877. Documento histórico contemporâneo às obras. (bdlb.bn.gov.br)
Instituto Rio Patrimônio da Humanidade — Rio Patrimônio Cultural. Histórico sobre a Doca da Alfândega, críticas de André Rebouças, Docas D. Pedro II e ligação ferroviária da Gamboa. (rio.rj.gov.br)
Biblioteca Nacional — Comissão de Melhoramentos da Cidade do Rio de Janeiro. Documentação dos relatórios de 1875 e 1876 e do papel crescente da engenharia no planejamento urbano. (bndigital.bn.gov.br)
Memória territorial: relatos familiares de trabalhadores da Alfândega, antigos cais, docas, ferrovias e armazéns poderão complementar esta pauta, sempre identificados como memória oral.
Você tem algum registro desse antigo Rio portuário?
Fotografias de família, documentos da Alfândega, registros de trabalhadores, mapas e imagens antigas podem revelar detalhes que não aparecem nos grandes arquivos.
Se você possui algum material relacionado à antiga frente marítima do Centro, Saúde ou Gamboa, compartilhe com o ClassiX Rio.
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Marcio do ClassiX
Desenvolvedor Full Stack e fundador do ClassiX. Com mais de 10 anos de experiência em tecnologia, minha missão é criar soluções digitais que transformam o cenário do comércio e da informação no Porto Maravilha em realidade.
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